Eu tinha cerca de doze ou treze anos. Estávamos no final da década de 1980 e eu iniciava a adolescência. Observava o aterro do flamengo pela janela do ônibus 572, quando certo tumulto na parte da frente do coletivo me chamou a atenção. Um homem conversava com o motorista instantes antes de descer, causando risos nos demais passageiros. Curioso, me locomovi para o primeiro banco do ônibus, aquele que normalmente é o mais alto de todos, e preferencial para gestantes, idosos e pessoas com dificuldades.

O homem usava uma calça jeans surrada, tênis azul e uma camisa florida da mesma cor, costumeira na década em que vivíamos. Os cabelos despenteados se ouriçavam ao vento, e os óculos espelhados, típicos de um jovem jogador de futevôlei do Posto 9, criavam um contraste interessante com o farto bigode, ainda mais imponente que aquele que meu pai usava.

– Está vendo esses óculos aqui? Eu ganhei do Peninha, não… acho que não foi do Peninha, foi do Belchior. Isso, quem me deu foi o Belchior.

O motorista gargalhava e apertava sua mão em despedida. Os outros passageiros achavam graça daquilo, e eu, eu não entendia bem qual o motivo de tanta alegria. O que seria tão engraçado em um homem ganhar um par de óculos de um compositor famoso?

Na verdade, eu conhecia pouco ou quase nada, tanto da obra do Peninha quanto da obra do Belchior. Tive certeza disso, quando anos mais tarde, tocava violão com amigos nas pedras do Arpoador. Um deles me pediu “Toca uma do Belchior” e eu não fazia ideia de qual música poderia tocar. Ele então pediu o violão e eu o assisti tocando Velha roupa colorida. Essa eu conhecia, era da Elis. Quero dizer, foi gravada também pela Elis, porque o compositor era o Belchior.

Chegando em casa, busquei na coleção de meu pai, um disco com os grandes sucessos de Belchior. Provavelmente, eu já tinha ouvido, mas não havia dado importância na época. Assim que peguei a capa, entendi porque todos riram naquele ônibus com a brincadeira do “moço dos óculos espelhados”. O moço era o próprio Belchior.

Ouvi o álbum inteiro, uma, duas, três… centenas de vezes ao longo da vida. Um compositor extraordinário, que não teve reconhecido o seu verdadeiro valor. Bem, talvez não pelo público em geral, mas artistas como a Elis Regina sempre enxergaram o seu talento. Eu ficava pensando que não queria envelhecer e levar a mesma vida dos meus pais, eu era um jovem revolucionário. Entendi com os anos que o trecho “e a minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais” fazia todo o sentido. Eu envelheci, e com a idade veio a percepção de que não sou muito diferente dos meus pais, e que o meu país, também não mudou tanto assim.

Cheguei a assistir a um show do Belchior no Teatro João Caetano, pelo projeto Seis e Meia, com meu pai. Pena ter sido o único e em uma época em que conhecia pouco de sua obra. Outro dia vi a venda uma camiseta com a inscrição “Fora Temer, volta Belchior” e pensei em comprá-la. Infelizmente, Belchior não voltará mais, e o Temer, bem, esse parece que só sai após as eleições de 2018.

Longa vida a sua obra! Ficam as melodias, as grandes composições e a esperança de um Brasil com mais compositores como Belchior e menos políticos como Michel Temer.

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Rodrigo Barros

Escritor e roteirista, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Seu último livro lançado é “Da Rebelião à Glória”, pela Editora Multifoco, em 2016.

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