quinta-feira , 6 de dezembro de 2018
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Kindle paperwhite: Prático como você

Tchau querida!

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Com a decisão da maioria dos senadores brasileiros, o senado irá julgar o impedimento da presidenta Dilma. A decisão a afasta automaticamente de suas funções pelo período máximo de 180 dias, quando terá o procedimento julgado em definitivo. Eu particularmente não conto mais com uma reviravolta no processo, o caso será julgado, talvez até mesmo antes do tempo máximo necessário, e ela será definitivamente afastada da cadeira presidencial.

É evidente e indiscutível que Dilma não era o melhor nome para dar seguimento ao legado de Lula. Ele mesmo já afirmou que se equivocou ao dar a ela a oportunidade de presidir o País. O primeiro governo não foi bom, inábil politicamente, se isolou dia após dia de opositores e de aliados, até mesmo do PT. A economia dava sinais de retrocesso no PIB, no número de empregos formais e outros indicadores que afetam diretamente a população. Ainda assim, os brasileiros acreditaram que entre os que disputavam o pleito, ela seria a melhor opção para o País, e nessa eu me incluo, ainda que, após chegar ao governo, o Partido dos Trabalhadores tenha cometido as mesmas práticas que combateu durante sua existência, caixa dois, propinas e outros desvios de dinheiro público. O caso da Petrobrás foi ainda mais emblemático que o “mensalão”, provou que nem com as punições, o partido aprendeu e permaneceu seguindo as práticas de seus antecessores. Sim, porque diferente do que bradam os mais ignorantes, a maioria, e os manipuladores e oportunistas, a minoria, a corrupção na Estatal atravessou gerações e diversas gestões presidenciais.

Mesmo com tudo isso, Dilma foi reeleita democraticamente com cerca de 54 milhões de votos. Enxergamos os erros, não podemos ignorar os acertos, e foram muitos, mais universidades, mais emprego, e milhões de pessoas fora do mapa da fome, pessoas e o próprio País, que saiu do mapa da fome da ONU. A quarta derrota nas urnas foi como um soco no estômago da oposição, acostumada a dominar o País da maneira que lhe interessasse. Ela não só se via novamente sem o “cetro de majestade”, como também assistia às investigações cada vez mais próximas: Furnas, Lava Jatos, Zelotes e tantas outras que não afetavam apenas políticos do PT, mas também, e principalmente, do PMDB, PSDB e PP. Alguma coisa precisava ser feita, e o “plano infalível” começou, mas esse, diferente dos planos de Cebolinha e Cascão, daria certo no final, tirando o reinado da baixinha dentuça, que veste vermelho.

Assim que apurado o último voto, contestaram a vitória alegando manipulação nas urnas, não deu em nada, mas a semente começava a ser plantada. A mídia já não mais se preocupava apenas em desinformar, a manipulação da informação, seletiva e conveniente estava a todo vapor. O segundo mandato sequer existiu, Dilma não teve paz um só dia. A justiça também não foi… Digamos…  Justa. Delações serviam para prender alguns imediatamente, enquanto outros passavam em branco nas investigações, mesmo sendo citados diversas vezes. Falando em investigação, até na hora de colher depoimentos, o procedimento era diferente. Alguns eram convocados para depor sem que ninguém soubesse, outros aos holofotes, com centenas de jornalistas cobrindo conduções coercitivas.  A população estava nas ruas, de verde e amarelo bradando contra a corrupção. Bem, bradando contra a corrupção de aliados do governo, a grande maioria não estava preocupada com a corrupção da oposição.

Um desses aliados era o presidente da câmara de deputados, Eduardo Cunha, que conseguia se safar de toda e qualquer tentativa de retirá-lo do cargo. Contudo, chegou o momento em que as investigações foram longe demais, e não havia mais nada que o governo pudesse fazer para blindá-lo, sua queda era uma questão de tempo. Sua última cartada foi aceitar um dos inúmeros pedidos de impedimento, impetrados pela oposição contra a presidenta. Escolheu o mais frágil, mas era indiferente. Ele e todos nós sabíamos que a partir daquele momento seria indiferente se os atrasos nos repasses da União a bancos públicos para cobrir gastos dessas instituições com programas do governo, as “pedaladas fiscais”, são ou não crimes. Juridicamente, especialistas não chegaram a uma conclusão de fato, há controvérsias, mas uma coisa é fato, a maioria dos governadores utilizou a mesma prática, até mesmo o vice-presidente Michel Temer assinou as tais “pedaladas”. E quem se importa?

Eduardo Cunha assentou o terreno e levantou à lona. Os deputados deram o prosseguimento ao circo que seria montado. A população voltou às ruas, dessa vez, não somente de verde e amarelo, mas também de vermelho. Após negociações de cargos, traições e discursos beirando ao ridículo, por Deus, pela família e pela República de Curitiba, os corruptos da casa decidiram aprovar o impedimento e mandar o caso ao senado. Não era o fim do processo, contudo, era a consolidação do golpe à democracia.  Era impossível o senado não afastá-la por 180 dias, precisavam de maioria simples e como não se trata de um julgamento baseado em leis e sim em apoio políticos, eram favas contadas. Seria como você ser julgado por um traficante na favela, ou até mesmo pelo Espantalho, na Gothan City de Christopher Nolan. O golpe final ainda virá, mas será apenas o fatality do Mortal Kombat, você já sabe que perdeu a luta, espera apenas o fim do jogo.

Ainda que não tenha nenhuma admiração pela Dilma como gestora, ela detém a minha admiração como ser humano e principalmente como mulher. Foi guerrilheira, lutou contra a ditadura e foi torturada por isso, sem entregar um companheiro sequer. O ex-presidente Fernando Collor, quando se viu sozinho em 1992, renunciou após o processo passar pela câmara dos deputados. Dilma não, ela resistiu e ao que parece, resistirá até o final de seu mandato, mesmo sem apoio, sendo xingada nas ruas e nas redes sociais por uma sociedade que se envergonha até mesmo de chamá-la de “presidenta”, usando o termo masculino. Se como política, fracassou em deixar um legado positivo, Dilma mostrou às mulheres do País que elas podem chegar a qualquer lugar. Lugar de mulher não é na cozinha, e sim onde ela quiser estar, até mesmo na cadeira destinada ao presidente da república, ainda que isso incomode os milhares de machistas desse imenso Brasil.

Desde 1889, quando foi instaurada a República, até 2015, o Brasil foi comandado por quarenta e dois presidentes. Eleitos democraticamente pelo povo? Dezoito deles. Para piorar, apenas onze terminaram seus mandatos, incluindo a presidenta em seu primeiro mandato. Dilma inevitavelmente se juntará à lista dos que não puderam concluir o projeto para o qual foram eleitos. A grande verdade é que somos uma republiqueta de terceiro mundo. Ainda que o crescimento dos últimos anos tenha nos colocado em um patamar elevado perante outros países, como sociedade, como povo, estamos no nível dos medíocres, acostumados a sermos governados por aqueles que não elegemos, e a assistirmos calados nos usurparem o direito do voto. Acostumamo-nos aos golpes à democracia, e foi pensando justamente na democracia que defini o título deste texto: Tchau querida!

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Sobre Rodrigo Barros

Rodrigo Barros
Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing.

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