sexta-feira , 18 de janeiro de 2019
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A depressão

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Ele já não se preocupava mais com a depressão econômica que o mundo enfrentava. A crise do café, no início dos anos vinte, tirou toda a esperança de conseguir sobreviver na capital paulistana ao longo dos anos.  Antes mesmo da quebra de Wall Street em Outubro de 1929, já havia muitas empresas fechando. Só em setembro, o Correio da Manhã anunciou setenta e duas falências e concordatas. Era preciso encarar a realidade, ele estava falido.

Nem com o auxílio do governo federal, conseguiu sobreviver à retenção da safra de 1928 nos armazéns para a valorização do café. Equalizar as contas somente com a venda da safra de 1927 o levou a ruína. Não teve coragem de encarar a esposa, contar a ela, que ainda tinha que cuidar de duas filhas pequenas, que havia falido e levado com ele, toda a história centenária dos fazendeiros da família.

Deixou o escritório no centro da cidade e caminhou pelo viaduto naquela noite fria. Sentia a garoa umedecer seu sobretudo e atrapalhar a visão de seus óculos. Pensava em tomar um café. Pediu um expresso em uma lanchonete que ainda estava aberta. Tirou do bolso do terno uma garrafa de metal que levava com conhaque para os momentos mais difíceis. Abriu lentamente e enquanto observava a chuva fina com um olhar pensativo, derrubou o conteúdo alcóolico dentro da xícara de café. Misturou as duas bebidas e começou a tomar vagarosamente o líquido que servia para aquecer e dar-lhe coragem para o que precisava ser feito.

Enquanto olhava para a chuva, um morador de rua lhe pediu algum trocado, sorriu, mal sabia ele que agora deveria ter menos dinheiro que aquele pobre coitado que lhe pedia esmolas. Acenou negativamente com a cabeça e seguiu tomando seu café. Ao final da bebida voltou a encher a xícara de conhaque, que agora representava quase a totalidade da mesma. Diferente do que vinha fazendo até então, passou a dar goles fartos na bebida e terminou em segundos, sentindo a garganta queimar. Jogou algumas moedas no balcão, acenou para o atendente e seguiu o caminho que havia traçado em sua mente.

A chuva apertou, acelerou os passos, mas não adiantou muita coisa. Chegou à entrada daquele velho hotel completamente encharcado. Pediu um quarto ao atendente, que lhe comunicou que metade do valor precisaria ser pago antes do início da estadia. Ele não tinha o dinheiro, obviamente, mas convenceu o atendente de que como estava muito molhado da chuva, subiria para o quarto, tomaria um banho e desceria para pagar parte da estadia. O cômodo era grande, tinha uma cama de casal, e uma banheira de louça, um pouco antiga, mas o suficiente para que pudesse relaxar um pouco. Riscou um fósforo e acendeu o boiler que aqueceria a água.

Começou a encher a banheira e tirou o terno completamente encharcado. Deixou toda a roupa pelo chão e adentrou a banheira usando somente as ceroulas. Já deitado pegou sua calça e tirou o relógio de bolso para conferir as horas, era tarde, sua esposa devia estar preocupada, mas agora isso era o de menos. Ela não o veria aquela noite. Na verdade ela não o veria mais em noite alguma. Enquanto tentava se aquecer na água quente, olhava a chuva pela janela. Cada gota de água que molhava o vidro se equiparava a uma lágrima que escorria de seu rosto. Ele havia perdido tudo, seu dinheiro, sua história e sua honra. Ficaria marcado como o membro que arruinou a fortuna da família, assim como tantos outros de sua época.

Vestiu um roupão que estava a sua disposição no quarto. Enxugou-se e ligou o rádio que havia no criado mudo ao lado da cama. O jornal noticiava as empresas que estavam falindo após a quebra da bolsa nova iorquina. “Não era possível, o que estaria acontecendo com o Mundo? O que seria do Mundo?” Pensou ele. Instante depois já não se importava, de que adiantaria se lamentar agora? O que estava feito, estava feito e nada poderia alterar o presente. Desligou o velho aparelho e acendeu um cigarro, o último que restava no maço que carregava no bolso. Mais uma vez ficou observando a chuva, um dos ciclos da água, que evapora e depois retorna a terra, tudo na vida é cíclico, assim como tinha acontecido com ele até agora. Seu ciclo havia terminado.

Algumas horas haviam se passado desde que ele subiu ao quarto. O atendente do hotel precisava fechar a recepção, mas para isso tinha que encerrar o caixa. Fechou a porta principal e subiu as escadas para cobrar o valor da hospedagem, já que o homem não descia pra honrar seus compromissos, conforme havia prometido. Um silêncio sepulcral ocupava as dependências do hotel, como se ninguém ali estivesse hospedado. Bateu na porta algumas vezes, mas não foi atendido. Repetiu o feito por mais alguns minutos e começou a ficar preocupado com o fato daquele homem, que chegou tão bem vestido, não abrir a porta.

Desceu até a recepção e pegou uma chave reserva pra abrir o quarto e descobrir o que tinha acontecido com o homem. Tinha medo do que poderia encontrar. Aquela sensação ruim, de quando um frio percorre a espinha, como se o mal de alguma forma se aproximasse. Encostou a chave na entrada da fechadura com certo receio, deveria bater mais uma vez na porta antes de tentar abri-la? Hesitou. Respirou fundo e bateu mais uma vez, como havia acontecido antes, nenhum movimento de dentro do quarto. Era hora de abrir a porta. Sem movimentos bruscos, girou vagarosamente a maçaneta, após destrancar a fechadura. O quarto estava completamente no escuro.

Acendeu a luminária próxima a porta e viu aquilo que não queria encontrar. O homem tinha acabado com seu próprio sofrimento. Estava pendurado ao lustre com um lençol em volta do pescoço. Sua vida havia sido levada pela depressão, a da bolsa de valores e a da tristeza que o consumia.

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Sobre Rodrigo Barros

Rodrigo Barros
Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing.

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