quinta-feira , 21 de março de 2019
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O futebol NÃO PODE ser assim mesmo

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O futebol tem evoluído ao longo dos anos e vejo muitas críticas de torcedores que reclamam de tudo, mas pararam no tempo, assim como os dirigentes. Frequento estádios desde criança e, de lá pra cá, muitas coisas são diferentes, outras nem tanto. Se hoje não urinam mais nas paredes internas de estádios como o Maracanã, se não há mais geral, torcedores em arquibancada lisa e sem cadeiras, ainda temos os vândalos de antes, os corruptos de antes e as ofensas de antes.

Em 2014, o Grêmio foi excluído da Copa do Brasil devido a alguns de seus torcedores chamarem o goleiro Aranha, então no Santos, de macaco. Pela primeira vez um clube foi punido por ofensas racistas de seus torcedores, um indício de mudança, que vem ocorrendo no mundo inteiro, não só aqui no Brasil. A FIFA tem diminuído consideravelmente a tolerância ao racismo.

Na ocasião, questionei o fato de tolerarem outras ofensas, pois pra mim, ofensa é ofensa, independente de para quem ela é proferida. Estive na partida entre Fluminense e Corinthians, no Itaquerão, pelo Campeonato Brasileiro de 2014. O goleiro do Fluminense era o Kléver, que é negro. Toda vez que o arqueiro pegava na bola para bater tiro de meta, os gritos da torcida do Corinthians eram “ôoooooooo BICHA”.

O confronto das arquibancadas não era diferente, torcedores (muitos negros) do Corinthians, se viravam para a torcida do Fluminense e proferiam diversas ofensas homofóbicas, de “Bambi do Rio” a “Time de viados”. Conversei com um policial que fazia a segurança do estádio e disse: – Se eu o chamar de macaco eu vou preso, ele me chama de viado e tudo bem, vocês não dão voz de prisão. – Ele riu, concordou e acenou a cabeça como quem dissesse “É por aí, nada posso fazer”.

Caso o Kléver tivesse sido chamado de macaco e não de bicha, a torcida e a equipe teriam sido punidas. Não é incoerente?

Quando citei o ocorrido pelas redes sociais, recebi críticas da própria torcida do Fluminense, “É assim mesmo, é só futebol”, “é só zoeira de torcedor”, ou ainda “eles fazem isso com o Rogério Ceni todos os jogos, é normal”. Não, não é normal, é só o reflexo da nossa sociedade, o futebol é um ambiente propício para colocarmos em prática tudo aquilo que condenamos na sociedade, fora do âmbito esportivo.

Essa semana, a torcida do Palmeiras fez o mesmo com o Rogério Ceni. Aliás, é comum ofensas homofóbicas de outras torcidas aos torcedores do São Paulo e a desculpa de ser “só futebol” não é coerente com a realidade dos fatos. Os próprios torcedores do São Paulo dizem não se importar em comentários que leio por aí, mas na verdade, é só a deixa para que possam fazer o mesmo com outros torcedores, usando outros artifícios. A repórter Gabriela Moreira, da ESPN, ao entrevistar um torcedor do Palmeiras, antes do clássico, criticou o entrevistado pelo uso do termo homofóbico em relação aos adversários, e vem sendo achincalhada nas redes sociais por querer o que é correto. Não é um contrassenso?

Tenho amigos Palmeirenses que defendem arduamente o que é correto, lutam contra a homofobia, criticam quando manifestantes chamam a presidenta de “vagabunda” e afins, durante as manifestações e, se sentem indignados com o fato de não poder ofender quando o âmbito é o futebol. Por que o correto deixa de ser o correto porque estamos falando de futebol? Porque o incorreto passa a ser considerado normal?

No futebol, tudo de ruim que temos na sociedade, se reflete de forma clara, mas com a anuência de todos, como se tivéssemos passe livre para cometer atos ilícitos, ofensas e deixar aflorar todo nosso preconceito e violência. A ofensa homofóbica da torcida do Palmeiras vem sendo criticada por muitos da imprensa, os mesmos que ignoram a ofensa proferida, de forma idêntica, pela torcida do Corinthians. Alguns times têm passe livre para tudo, serem beneficiados por federações, vencer com erros de arbitragem de forma constante e cotas de TV muito maiores que a dos outros, podem dever ao Estado e ter patrocínio de estatal, ganhar todos os benefícios para quitar suas dívidas e até ganhar estádios, sem isonomia e com total conivência de todos: torcedores, dirigentes e jornalistas.

A frase do goleiro Felipe, então no Flamengo, após conquistar o título Estadual sobre o Vasco da Gama, com um erro de arbitragem, reflete o pensamento da maioria dos torcedores de uma forma geral: “roubado é mais gostoso”. A postura de grande parte da imprensa, em 2013, criticando os tribunais por tirarem pontos do Flamengo e da Portuguesa, que escalaram jogadores de forma irregular, somente porque isso livraria o Fluminense do rebaixamento, comprova a teoria que levanto. No futebol, tanto faz o certo ou o errado, é uma terra de ninguém, e querem que seja assim, hoje e sempre.

Está tudo errado no futebol brasileiro, da mesma forma que está tudo errado na sociedade brasileira, mas fora do âmbito esportivo, todos ficam indignados com tudo, pelo menos na frente dos outros não é mesmo? Contudo, no futebol tudo é permitido e defendido, corrupção, ofensa, propina, violência, assassinato, entre outros, porque “futebol é assim mesmo”.

Não se trata de ser piegas ou levar ao extremo o politicamente correto, se trata de enxergar o que é certo ainda que isso não me beneficie. O futebol NÃO PODE ser assim mesmo.

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Sobre Rodrigo Barros

Rodrigo Barros
Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing.

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