domingo , 25 de agosto de 2019
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O meu prazer agora é risco de vida

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Não lembro a primeira vez em que estive em um estádio para acompanhar uma partida de futebol. Meu pai tinha por hábito me levar desde bem pequeno ao Maracanã. Naquela época, era comum as torcidas se sentarem lado a lado. Não entrarei no mérito sobre o que levou as torcidas serem separadas. Quando isso ocorreu, era apenas por uma corda, algo mais simbólico que uma separação de fato.

Os tempos hoje são outros, as mazelas da nossa sociedade passaram a refletir de forma ainda mais intensa no esporte de maior popularidade do País. O nosso futebol absorve tudo de equivocado que ocorre em nosso dia a dia e, ando bem cansado do que acontece em nosso País. Fico com a impressão de que carregamos conosco o DNA da corrupção. Todo instante percebo uma tentativa nova de ser ludibriado por outrem, seja um troco dado de forma equivocada, um taxímetro adulterado, uma nova tentativa dos nossos governantes em criar leis que só os beneficiam e, no esporte isso não seria diferente.

Não sou inocente ao ponto de acreditar em erros de arbitragem constantes sejam ao acaso. Muito menos que isso ocorra para todos os clubes. Não ocorre. Ocorre de forma sistemática para os mesmos clubes, passando em branco pela imprensa esportiva, que finge não ter noção do certo e do errado para que com isso ajudar o “sistema” a se manter, exatamente como ocorre no cenário político.

Acontece a olhos vistos, estádio sendo construído com dinheiro público e entregue de mão beijada a um dos clubes de maior torcida. Alguns recebendo patrocínio de empresa pública, com a TV distribuindo cotas três vezes maiores que a de seus adversários e para colocar uma cereja no bolo, os erros de arbitragem que os mantém em um ritmo constante de vitória ainda que não estejam em seus melhores dias.

Sempre me pego pensando porque ainda insisto nisso. Já não é mais um lazer, não há mais prazer. É um estresse constante acompanhar futebol. Como costumamos dizer, temos que ganhar “contra tudo e contra todos”. Deveríamos lutar somente para ganhar na bola e dos nossos adversários, não deles e da arbitragem, da imprensa, dos patrocinadores e das federações. Se assistimos a uma partida na casa do adversário, todos esses problemas se ampliam. Enquanto torcidas organizadas, repletas de marginais, são escoltadas até o estádio, o torcedor comum é tratado como bandido, com a truculência policial, com a violência dos adversários, e com preços superfaturados para transformar o sentimento pelo clube do coração em mais uma maneira de lesar o próximo.

Ingressos a preços surreais, falta de estrutura, ruas fechadas, estacionamento custando metade do valor do ingresso e sempre com o risco iminente. Esse foi o cenário que encontrei no Allianz Parque para assistir a segunda partida da semifinal da Copa do Brasil de 2015. O ingresso custava 120 Reais, o estacionamento do shopping ao lado estava inacessível, porque todas as ruas estavam fechadas pela polícia, tomadas por torcedores e ambulantes trabalhando sem alvará da prefeitura. Um trajeto que faço sempre, pois resido em São Paulo, estava fechado. Fechado pra mim e para os diversos moradores e trabalhadores da cidade. Após pagar 40 Reais para estacionar em um local que assim como os ambulantes não tinha alvará de funcionamento, adentrei ao novo estádio do Palmeiras.

Já o conhecia, fui a um show do Paul McCartney no local, com muito mais expectadores que o da noite de quarta-feira, mas sem rua fechada, sem policiais dispostos a agredir o público a qualquer momento e sem fãs de outro estilo musical querendo me agredir apenas por ter um gosto diferente do dele. No decorrer da partida o de sempre. Erros de arbitragem, jogando “contra tudo e contra todos” e no fim uma desclassificação nos pênaltis, vida que segue. Fiquei preso por mais de uma hora dentro do Allianz Parque porque a logística (?) de segurança, mantém os torcedores adversários presos no estádio, enquanto a torcida da casa, que comemorava a classificação podia ir embora livremente. Não precisa ser muito inteligente para saber que é o cenário ideal para uma emboscada. Algo mais do que comum na capital paulistana.

Para coroar o cenário de horror, um torcedor do Fluminense passou mal nas arquibancadas. Outros tricolores apelavam de forma desesperada para que os policiais chamassem o socorro, já que nenhum funcionário do Clube ou do Estádio estavam por perto.  Ouvíamos os policiais respondendo com certo desdém “Não sou médico, não posso fazer nada, sai pra lá”, já ameaçando uma agressão caso algum torcedor tentasse ultrapassar o corredor por eles organizado. Depois de muito apelar, um bombeiro do Estádio apareceu e foi conferir o homem que estava deitado recebendo os primeiros socorros de outro torcedor, que por coincidência era médico. Não havia maca, demoraram a descobrir onde a maca estava guardada. Cerca de vinte minutos depois, finalmente, o torcedor foi carregado para o primeiro atendimento. Hoje recebemos a notícia de seu falecimento.

Diferente do que afirmou oficialmente a diretoria do Palmeiras, o torcedor não recebeu pronto atendimento, muito menos deixou o ambiente acordado e respondendo a estímulos. Não sou médico, não posso afirmar que ele sobreviveria, mas suas chances diminuíram bastante após ter sido negligenciado apenas por ser um torcedor adversário. Se policiais estivessem mais preocupados em atender a população do que ameaçá-la, talvez tivesse uma chance, mas ele não teve. Flávio Mendes faleceu porque poucas coisas funcionam nesse País e nada, ou quase nada, vai mudar. Não mudou com o incêndio na boate Kiss, no Sul do País, e nem com a morte do jogador Serginho, do São Caetano ou a queda do alambrado de São Januário na Copa João Havelange.

O falecimento de Flávio reforçou um pensamento que já carregava comigo há algum tempo e que estava quase em definitivo na noite de ontem. O futebol de hoje tem pouco a me oferecer. Não há prazer algum em ser “roubado” na bilheteria ou em campo. Perdi o gosto de ir aos estádios e espero que a minha paixão pelo Fluminense não seja maior que meu bom senso, pois o que aconteceu ao Flávio, poderia ter acontecido comigo. O que aconteceu no Allianz Parque poderia ter acontecido em qualquer outro lugar, porque o torcedor é o que menos importa para aqueles que administram o nosso futebol.

Se antes só me sentia ameaçado por marginais travestidos de torcedores, agora, com quase quarenta anos, a ameaça é outra. Posso vir a ter o mesmo fim de Flávio, que faleceu aos 51 anos, por negligência e falta de interesse pela vida alheia. Como diria o poeta, o meu prazer agora é risco de vida e a minha vida vale mais que isso.

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Sobre Rodrigo Barros

Rodrigo Barros
Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing.

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