quarta-feira , 16 de janeiro de 2019
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Trinta anos

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Os anos se passaram, confesso que ainda não me sinto à vontade sabendo que cresci, por dentro ainda tenho vivo aquele menino que corria atrás de saquinhos de doce pelas ladeiras de Santa Tereza. Ainda preciso da força dos meus pais, ainda tenho medo do escuro quando estou sozinho e ainda tenho medo de terminar os meus dias sem ninguém por perto, jantando em um restaurante sem a presença de minha mulher, filhos ou netos.

Percebo que ao sorrir algumas pequenas marcas já surgem em meu rosto, que meus cabelos, apesar de ainda serem fartos (por quanto tempo ainda?), já são em grande parte grisalhos e, descobri que vem se tornando cada vez mais difícil me manter no peso que gostaria de ter.

No ano anterior acho que entrei na crise dos trinta, antes mesmo de tê-los efetivamente. Senti que estava envelhecendo depressa demais, percebi que agora estava me tornando adulto, não somente maior de idade, na concepção da palavra, mas um adulto como era meu Pai aos meus olhos criança.

Acho que senti um certo temor, pensei em como seria bom se pudéssemos reverter o tempo. A partir desse instante  eu só passaria a decrescer, passando novamente por todas as fases da minha vida, mas, levando comigo a experiência que adquiri nesses trinta anos, seria perfeito, cometeria menos erros, e poderia dar muito mais valor aos pequenos detalhes que me passaram despercebido, e que hoje me trazem tanta saudade. Já imaginaram como seria bom retornar a infância?

Se pudesse voltar à infância, acho que estudaria mais Matemática para dar orgulho ao meu Pai, com os anos percebi que ela nem era tão difícil assim, e que ele sempre me mostrou isso, o mesmo vale para os ditados da minha tia, se prestasse mais atenção nela que na Tv acho que acertaria a maioria das palavras. Daria valor a cada segundo tomando suco e morango ao leite quando minha mãe me buscava na natação, aliás, acho que teria nadado bem mais do que nadei, talvez hoje ficar no peso ideal seria bem mais fácil.

Gostaria de reviver os cafunés ao colo de minha mãe, reviver o sorriso da minha irmã pequenininha em cima do armário, usando somente fraldas e brincando de “super-homem” comigo. Poderia reviver o mingau de aveia que minha avó me preparava nas noites vazias e, quem sabe até a mamadeira na porta da cozinha que ela preparava quando sentia ciúmes da minha irmãzinha. Acho que iria saborear muito mais as goiabas, que com amigos, eu roubava nas casas vizinhas.

Ah os meus amigos, como seria bom reviver cada um deles, jogar taco na ladeira, descer de carrinho em alta velocidade, corrida de chapinha, bolinha de gude, fugir da síndica, matar aula, como eu viveria tudo isso de novo com muito mais felicidade. Poderia reviver cada momento de aprendizado, o primeiro beijo, hoje seria muito melhor, a primeira vez, as primeiras meninas, as primeiras amigas mais interessantes, como seria bom viver tudo de novo.

Mas hoje, chegando efetivamente aos trinta, percebo que, se eu revivesse tudo isso perderia a saudade, e talvez pela experiência não veria graça em tudo que fiz nesses trinta anos. Sem esquecer que perderia todas as coisas boas que ainda estão por vir e, se pudesse reviver tudo, erraria bem menos, não carregando comigo as marcas das dores que sofri, dos erros que cometi e as experiências que adquiri. Cheguei à conclusão que é melhor levar comigo apenas as lembranças de um passado feliz, mas sem abrir mão dos meus sonhos que fazem do meu futuro tão feliz quanto o meu passado, e eu ainda tenho tanto para viver.

Vivi muita coisa nesses trinta anos, já me casei, me separei, me casei novamente. Já descobri que a mulher da minha vida não é quem eu pensava que seria, e espero que agora o seja. Já sofri muito com meu time de coração, mas tive muitas glórias e vitórias mil com o meu Fluminense, Campeonatos Estaduais, Brasileiro, Copa do Brasil, enfim, foram mais glórias que tristezas.

Vi alguns amigos partirem, vi muitos outros surgirem e reencontrei outros depois de adulto. Já tive um carro, já tive uma moto, já saí da casa dos meus pais, já retornei, e já os deixei novamente. Já entrei na Universidade, me formei, retornei e me formei outra vez, bacharel duas vezes. Já tive uma banda de Rock e até show eu já fiz. Perdi a conta dos porres que tomei

Ainda não escrevi um livro, também não plantei uma árvore e, ainda não tive um filho, retornar ao passado me tiraria todas as possibilidades de deixar a minha impressão digital pelo planeta e, ainda tenho muito para viver e realizar. O livro eu já estou rascunhando, a árvore posso plantar a qualquer instante, e o filho quem sabe possa vir a ter em breve.

Analisando esses trinta anos, percebi que minha vida talvez não tenha sido tão diferente da maioria das pessoas, mas no meu infinito particular percebo que fui muito feliz nesses anos que passaram, muito mais do que poderia desejar e, só tenho a agradecer por cada segundo que se passou, por cada pessoa, por cada momento, desejando que os próximos trinta anos sejam mais felizes ainda, com novas lembranças, novas saudades, e com novas perspectivas aos sessenta anos.

Hoje sei que me tornei mais forte que o vento, mais rápido que o pensamento e mais protetor que o abrigo, só me resta agora passar para frente tudo que aprendi, mantendo viva a chama, e tendo a certeza que o espelho não se quebrou, porque o meu medo maior era o espelho se quebrar… comigo.

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Sobre Rodrigo Barros

Rodrigo Barros
Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing.

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Um comentário

  1. Dos momentos felizes que eu tive meu filho, você foi protagonista em muitos deles. Beijos

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