Kindle paperwhite: Prático como você

A última (?) vez…

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Ele sabia que o mundo estava diferente. Fazia tempo que as coisas entre eles não mais se encaixavam de alguma forma, de algum jeito. Algo se perdeu e a realidade estava a cada instante mais distante dos sonhos do passado. Ela também sabia que algo estava por vir, não que seus olhos deixassem de brilhar ou seu coração seguisse o mesmo ritmo quando o via, mas algo estava distante. Ele sentia isso. Ela talvez ainda não tivesse essa certeza. Como aceitar perder alguém que só o ensinou a querer pra si? Esse era seu principal pensamento. Os beijos ainda eram os mesmos, o calor ainda era o mesmo, tudo seguia o mesmo roteiro de antes, mas ele sabia, estava tendo o último suspiro do amor de sua vida.

Quando se encontraram, sorrisos tímidos, mãos suadas e o receio. Parecia que se viam pela primeira vez. Não era uma contradição do destino que o último instante parecesse com o primeiro após tantos anos? Em sua cabeça havia um filme, relembrava cada instante do primeiro encontro. Ele ansiava por seus beijos, estava tenso, nervoso, suava frio ali naquele táxi e foi assim que se beijaram pela primeira vez, um encontro com o desconhecido, com um momento que seria para a vida toda, até que chegasse ao seu fim.

Ele possuía as mesmas sensações do passado, o mesmo medo, a mesma insegurança, mas diferente de antes, o receio não era pelo que iria ganhar e sim pelo que estaria prestes a perder. Estavam no mesmo local, no mesmo quarto em que se amaram por dias, mas dessa vez seriam apenas algumas horas. Ele a teve mais uma vez, ainda mais intenso que antes, porque nesse instante, toda sua vida se resumia ali. Não era mais como antes, quando ali havia apenas o desejo. Dessa vez, observava o destino, velava o sono de seu grande amor, de sua metade. Ela adormeceu após entregar a ele seus últimos momentos com o amor pelo qual acreditava ser eterno.

Enquanto ela dormia profundamente, ele se lembrou de suas histórias, dos contos irreais que escreviam pelas fantasias de suas vidas. Lembrou-se de um dia terem sonhado em fazer amor em meio às tintas, entre quadros, que seriam pintados com seus corpos, em que a arte seria lasciva, profana, esculpida através de seus desejos, pelo chão, pelo corpo, pela alma. Procurou em sua bolsa algo que serviria para a ocasião. Encontrou um piloto de tinta vermelha. Observava sua amada deitada entre os lençóis, as costas largas, que tanto beijara um dia, seria o palco perfeito para seu discurso de despedida. Com os olhos cerrados, passou a escrever em sua pele o que lhe afligia. Sua derradeira despedida.

Quando terminou, saiu sem fazer barulho. Não queria ter de dizer adeus, não queria ver escorrendo pelos dedos todo seu universo, não queria ter que ajudá-la a ir embora. E ele se foi da mesma maneira que chegou, sem palavras, só o medo. Ela acordou, sentiu sua falta ao lado da cama e o procurou pelo quarto, pela varanda, e nada de encontrá-lo. Onde ele estaria?

O banheiro era o último local possível, tendo em vista que seria improvável sua saída sem uma despedida. Porém, ele não estava lá, não havia mais nada dele ali, nem suas roupas, nem sua bolsa, nem o seu sorriso e seus olhos de profunda paixão. Nada mais havia. Por que tinha que ser assim? Porque ele não pediu mais uma vez para que ela não partisse? Ela estava triste, sabia que não era mais o mesmo, que tudo estava diferente, mas havia dúvida, não certeza. Por que ele foi embora sem deixar para ela o seu sorriso, o seu pedido?

Quando saía para juntar as coisas e partir, percebeu que havia algo em suas costas, através do reflexo do espelho, olhou com mais atenção e viu que ali havia algo escrito, um recado, um alento. Ele havia tatuado em sua pele, um último pedido:

“Quando percebi que meu coração não mais me pertencia,
Descobri em mim um novo sentimento.
Que meu sorriso não fique apenas na fotografia,
E que meus sonhos habitem também teu pensamento.

Se for de tua vontade que eu tenha de partir,
Não poderei lutar com tua escolha.
Aceitarei o futuro que está por vir,
E que meus pedaços o tempo recolha.

E assim, que meus temores não se concretizem,
Pois nem a morte me seria um alento,
Que meus medos com rapidez se exorcizem,
Pois cada instante me seria um tormento.”

Ela sorriu e se lembrou de tudo que viveram juntos, de todo o tempo que sonharam o mesmo sonho. Pouco depois, o sorriso se converteu em lágrimas, pois não se lembrava da última vez que havia dito que o amava.

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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