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De volta ao País das Maravilhas – Parte 2

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Antes de ler este conto, leia a primeira parte: De volta ao País das Maravilhas

Após a primeira noite em que Alice e Daniel passaram juntos, não havia mais como inibir a paixão que um sentia pelo outro. Amaram-se por muitas outras noites. A cidade tornou-se a principal rota de trabalho de Daniel, sempre que podia, estava por perto, para que pudesse encontrar e amar Alice. Isso ocorreu nos meses seguintes, na verdade, por mais de dois anos. A rotina era quase sempre a mesma, ela ia para o hotel onde ele estava hospedado, jantavam juntos e terminavam a noite entre beijos e poemas.

Alice o amou mais que a qualquer outro homem, sabia que estava ligada a ele, presa a alguém que não poderia ser dela. Nos últimos meses, passou a pensar bastante sobre isso, não se tratava de simplesmente abandonar a esposa e ficar com ela. Isso provavelmente já teria acontecido se ele não tivesse filhos. Como pedir para que ele abandonasse a família para viver essa tórrida paixão ao seu lado?

Não seria justo, afinal, se fosse o inverso, também não teria forças para abandonar tudo e seguir ao seu lado. O que fazer? Terminar tudo e seguir a vida sem ele? Também não seria possível admitir essa hipótese. Decidiu que na próxima vez em que fosse vê-lo, teria uma conversa sobre o assunto, alguma coisa precisava mudar, porque além de não estar satisfeita com a situação, sentia remorso pelo que causava a esposa de Daniel, ainda que não a conhecesse.

Combinou por telefone o próximo encontro, desta vez não iria direto ao hotel como se tornou habitual. Marcaram um jantar no mesmo restaurante em que se encontraram pela primeira vez, já adultos. Daniel pensou em se tratar de alguma comemoração, e se animou com a possibilidade, enquanto Alice estava apreensiva, sabendo que poderia de alguma forma ter uma conversa definitiva com o amado.

Alice saiu um pouco mais cedo do escritório para poder passar em casa e se arrumar para o encontro com Daniel. Ele iria direto do aeroporto para encontra-la. Tomou um banho demorado, enquanto pensava em tudo que conversaria com ele, sabia que por mais que relutasse, aquela situação não poderia se estender por mais tempo, era preciso definir o futuro. Fechou os olhos. Sentiu a água quente bater na pele. Lembrou-se de todos os momentos que teve com ele, e chorou. Não poderia viver sem Daniel, mas também não poderia tê-lo pela metade. Vestiu um vestido negro, que em seu corpo esguio, valorizava os seios firmes.

Chegou ao restaurante cerca de quinze minutos antes do combinado. Escolheu uma mesa mais afastada e pediu uma água com gás. Olhou o cardápio sem prestar muita atenção aos detalhes, estava apenas passando os olhos e o tempo. Meia hora depois, começou a estranhar a demora de Daniel, sempre muito pontual. Checou as mensagens no celular, o e-mail e as redes sociais. Nenhuma tentativa de contato.

Chamou o garçom e pediu mais uma garrafa d´água, agora com um pouco de limão e gelo. Estava com sede e ansiosa, já havia repassado o discurso mentalmente por algumas vezes, precisava ver o que ele sentia e o que queria. Se de fato poderia ter a esperança de tê-lo pra ela. Imaginava o pior dos cenários, era verdade. Já se preparava para que ele optasse por sua família. Ela não só entendia a escolha, como já tinha tudo pronto para dizer caso essa fosse mesmo sua decisão, assim não se decepcionaria quando chegasse o momento.

Daniel seguia em silêncio. Mas o que estaria acontecendo? Ligou para um amigo, um rapaz que sabia de sua história. Pediu que tentasse contato com a empresa de Daniel, para descobrir se estava tudo bem, já que o celular só respondia como fora de área. Rafael demorou a retornar a ligação, precisou fazer mais contatos do que esperava para ter notícias de Daniel.

– Alice. Liguei pra empresa e ele não foi trabalhar hoje. Disseram que não havia viagem dele agendada para hoje. Achei estranho, me identifiquei como um amigo da família e me passaram o telefone de sua casa, me fiz de bobo e tentei a sorte. Atendeu uma tal de Dona Lourdes, parece que é empregada, ou babá das crianças, não sei ao certo. Ele não estava lá. Ela me disse, que saiu cedo com a esposa, deixou as crianças em casa, mas não tinha voltado e que deveria ter ido comemorar alguma coisa, porque antes de sair com ela, o tinha visto encomendando uma joia e flores. Ela também confirmou que não sabia nada sobre viagens nessa semana. Desculpe-me pela notícia, fico triste por você.

Já havia se passado uma hora do encontro marcado. Daniel não ia aparecer. Pelo visto, não precisaria mais conversar, ele já havia feito sua escolha. Alice abaixou a cabeça e chorou. Ele poderia ter ido embora, mas jamais tê-la deixada ali sozinha, esperando por ele no restaurante. Depois de tudo que viveram e sonharam, não merecia sequer um telefonema? Nem um adeus, ainda que distante?

Pediu a conta, pagou pelas duas garrafas d´água e foi embora. Decidiu caminhar pela orla, espairecer. Chorou como há muito não fazia. Ele não podia ter feito aquilo com ela. Enquanto caminhava pela praia, prometeu a si mesma que jamais voltaria a falar com Daniel. Excluiu seu telefone da lista de contatos, bloqueou toda e qualquer forma de contato por e-mail e pelas redes sociais. Avisou a empresa que estava passando por problemas particulares e que iria se ausentar por um tempo, queria paz, precisava de pelo menos uma semana sem telefone. Precisava esquecer tudo que viveu com ele, não iria acessar a internet, usar o celular, nada. Desligou-se do mundo.

Alice passou em casa, fez uma mala rápida e arrumou as coisas para sair. O telefone tocou, ela não atendeu, tocou mais algumas vezes e em todas às vezes, ela ignorou a chamada. Pegou o carro e partiu em direção à casa de Petrópolis, lá teria paz, sem telefone, sem notebook, sem celular e sem Daniel. Precisava agora apagar as lembranças que a acompanhavam.

Naquela manhã, Daniel havia decidido largar tudo para ficar com Alice, encomendou um presente, comprou flores, não foi trabalhar e pediu para conversar com a esposa. Avisou que estava saindo de casa. Precisava viver um grande amor, não se permitia mais viver uma vida ao lado de uma mulher por quem não mais tinha qualquer sentimento.

Alice nunca saberia disso, porque não teria a oportunidade de conversar com ele novamente. Afastada de tudo e de todos, não ficaria sequer sabendo da queda do avião. O acidente que impossibilitou seu encontro com Daniel.

Leia aqui a parte final desta trilogia de contos.

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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Um comentário

  1. Amei.
    Pena o Daniel ter morrido.
    Muito dificil encontrar um amor que resiste ao tempo :/

    Parabéns, rodo.
    Muito bem escrito e com muito sentimento

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