Kindle paperwhite: Prático como você

Londres

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Desde menina Mariana sonhava em conhecer a Europa, passou a infância combinando com sua melhor amiga de que quando fossem adultas viajariam juntas para conhecer Londres. Olhava a capa do álbum dos Beatles e pensava em como seria divertido atravessar a Abbey road com a amiga, ver a neve, ouvir música inglesa e tomar alguma bebida quente, de preferência alcóolica, algo impossível para sua idade.

Mariana cresceu, a vida seguiu um rumo diferente do de sua amiga, e não conhecia Londres até aquele momento. Estava ansiosa, depois de tantos anos finalmente teria a oportunidade de conhecer a capital Inglesa. Tudo bem que estava sozinha e indo a trabalho, sem os sonhos que a acompanhavam na infância, mas, era a oportunidade de ver de perto tudo aquilo que imaginava. Desembarcou em Heathrow por volta das 16h, horário local. Tomou um café ainda no aeroporto, antes de pegar o trem para o centro da cidade. Ah o trem, imaginava algo totalmente diferente, talvez influência dos livros que lia quando pequena, mas eram novos, bem mais modernos que os das grandes cidades do Brasil.

Chegando ao Hotel, tomou um banho quente e desceu para jantar. Não aproveitaria a cidade ainda porque precisava acordar cedo na manhã seguinte, seriam dois dias de reunião, na quinta e na sexta-feira, depois sim, teria quase uma semana livre para curtir o sonho antigo. Após o jantar, ligou o aquecedor do quarto, trocou de roupa e adormeceu rápido, estava cansada da viagem.

Após as reuniões e discussões sobre ações táticas da empresa, enfim poderia sair à noite, ir a um pub qualquer e ver gente diferente, conhecer o bairro e caminhar no frio, vendo a neve que caia lá fora. Vestiu uma roupa quente e um sobretudo na cor verde, que combinava com a boina e o cachecol que havia levado. Desceu e logo avistou um espaço que parecia interessante. Algumas pessoas liam enquanto tomavam seus cafés, outros bebiam algum drinque, muitos conversavam. Era um ambiente agradável. Pediu um café quente e um conhaque, misturou as bebidas e ficou ali, saboreando o conteúdo da xícara e admirando a paisagem quase branca que se formava por sobre a praça. Pediu um croissant para matar a fome e pegou um encarte que falava sobre os pontos turísticos da capital.

Avistou um rapaz que lhe chamou atenção lá no fundo da praça, ele fotografava ininterruptamente, não parecia turista, afinal, quem está viajando não tira tantas fotos seguidas de imagens a esmo. Achou interessante como ele manipulava a câmera, estava sozinho, no frio, e parecia se divertir com o que fazia.  Usava uma calça preta justa ao corpo, um grande casaco também negro e, uma camisa de gola role na cor branca. Ele tinha longos cabelos na altura dos ombros, negros, assim como a barba que lhe dava um ar despojado. Não parecia inglês e tinha um sorriso cativante. De tanto que o observava, acabou por chamar a atenção do rapaz, que lhe olhou de volta, e ambos sorriram com a situação.

Ela pagou a conta, e saiu com a intenção de retornar ao hotel, tinha definido todo um itinerário para o final de semana. Enquanto atravessava a praça, ouviu um som que lhe parecia familiar. Era Let it be, dos Beatles, e vinha de algum instrumento de sopro. Olhou para trás e lá estava o fotógrafo com uma gaita na boca entoando a canção. Ele caminhava a certa distância enquanto dava o tom daquela noite fria. Mariana parou e se virou em sua direção e, antes que pudesse falar qualquer coisa, o rapaz em português lhe disse:

– Oi, você é brasileira né?

Ela sorriu, estava na cara que ele não era um inglês.  Apesar de muito branco, já quase um Europeu, não passava despercebido aos olhos de um conterrâneo. Ela se apresentou, disse-lhe o que fazia e esperou que fizesse o mesmo.

– Meu nome é Felipe, trabalho para um jornal em Portugal, têm uns cinco anos que moro na Europa e vim fazer a cobertura de um evento de arquitetura em Londres. – Explicou o rapaz.

Decidiram por tomar uma cerveja em um pub perto do hotel onde Mariana estava hospedada. Conversaram por horas e decidiram que passariam o próximo final de semana juntos, conheceriam os pontos turísticos, comeriam nos melhores restaurantes, saboreariam as melhores bebidas, não se cobrariam saber mais do que já sabiam da vida um do outro, apenas viveriam intensamente aqueles dias, antes que ele precisasse voltar a Portugal.

Na manhã seguinte, ele se levantou cedo, beijou seu rosto, guardou a câmera e disse que voltava para almoçar, precisava descarregar as fotos do trabalho e colocar algumas roupas na mochila antes que partissem. Como prometido, retornou pouco antes do almoço, que fizeram no próprio hotel. Ele trazia uma nova câmera, diferente da noite anterior, era um pouco menor, e ele a chamava de “cinquentinha” devido a lente de 50mm que nela estava acoplada. Levou essa câmera para que pudesse tirar diversas fotos da Mariana. Prometeu que assim que chegasse a Portugal, trataria as fotos e mandaria um link para que ela baixasse.

A cada lugar visitado ele tirava diversas fotos, autorretratos juntos, fotos do sorriso de Mariana. Sempre pedia para que outros turistas tirassem fotos de ambos. Pena que teriam pouco tempo, ela ainda ficaria mais um pouco em Londres, ele não, precisava voltar, então foram intensos um com o outro, até que o encontro chegasse ao fim. Mariana não se recordava de ter sido tão feliz como estava sendo naquele momento. Tudo nele agradava: A conversa, o olhar, o sorriso, os beijos, o cheiro…

Fizeram diversos trajetos que lembravam os Beatles por toda a Inglaterra, tomaram cerveja no Cavern Club, atravessaram a Abbey  road, cantaram pelas ruas durante a madrugada, acordando quem tentava dormir na vizinhança. Entre vinhos, sorrisos e beijos aqueciam as gélidas noites inglesas. Era divertida a sensação de liberdade e de entrega, algo único na vida de Mariana. Aproveitou cada instante daquele final de semana como se fosse o último de sua vida, sem se prender em dogmas, pensamentos ou julgamentos, só quis viver aquele sonho com ele.

Durante o almoço de domingo, Mariana e Felipe combinaram que aquela última noite seria ainda mais especial, não sairiam do quarto do hotel, e passariam cada segundo curtindo a presença um do outro. E assim foi. Amaram-se intensamente durante toda a noite, como se não houvesse um mundo lá fora, somente aquele universo criado por eles mesmos.

Na manhã de segunda-feira, Mariana perdeu o horário, precisava estar cedo na estação, pois pretendia ir para Espanha, o primeiro País da Europa a conhecer em sua folga. Felipe não estava mais no quarto, saiu sem se despedir e, aquela altura já deveria estar em Portugal. Ela não se entristeceu, esse era o combinado, viver intensamente aqueles dias sem pensar no dia de amanhã, sem cobranças, sem futuro, tudo seria vivido ali e mais nada. Arrumou suas coisas para fazer o checkout e deixar o hotel. Enquanto arrumava as malas, acabou por encontrar a câmera de Felipe, ele a havia esquecido por sobre o sofá. Não tinha o telefone do rapaz, nem um e-mail, nada, nenhuma forma de contato e precisava devolver sua ferramenta de trabalho.

Assim que retornou ao Brasil, entrou em contato com um amigo jornalista, que poderia ajuda-la na tarefa de encontrar um brasileiro chamado Felipe, que era fotógrafo em um jornal de Portugal. Após semanas de busca, nenhuma pista sobre ele, não havia um único jornal português com um funcionário, em área alguma, chamado Felipe, nem havia qualquer fotógrafo em Londres para cobrir um evento de arquitetura. Teria ele mentido? Teria ela se equivocado e confundido as coisas?

Mariana nunca encontrou Felipe para devolver sua câmera, buscou pelas redes sociais, mas nenhuma informação relevante chegou até ela. Ele era uma incógnita, nunca mais veria ou teria contato com aquela pessoa que durante alguns dias lhe deu os maiores prazeres que já teve. Do jovem rapaz de longas madeixas, teria apenas as lembranças que trazia na memória, as fotos que trazia na câmera e o filho que trazia no ventre.

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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