Kindle paperwhite: Prático como você

A loja de LPs

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Em uma loja de discos antigos no centro da cidade de São Paulo, próxima à República, Mariana aproveitava o tempo livre que tinha naquela tarde de sábado para tentar encontrar um álbum do Pink Floyd que faltava em sua coleção de vinis. Raramente tinha tempo livre para fazer o que gostava, com filho pequeno e um marido que mal a deixava respirar, tentava aproveitar cada segundo desse “descanso” que às vezes lhe ocorria.

Assim que adentrou a loja, vestindo uma camiseta branca, que era a capa do ”The Wall”, seguiu em direção ao setor onde se encontravam os vinis de Rock Clássico. Mariana se perdeu no tempo olhando aqueles discos. Lembrava-se da infância, quando diferente das outras crianças que ouviam tudo que tocava nas rádios, estava sempre à procura de alguma coisa antiga, ou de um álbum novo com algum vizinho que gostasse de Rock como ela.

O marido não gostava muito dos hábitos que Mariana tentava cultivar na fase adulta, como ir aos shows, sair em busca de LPs, e tudo mais que envolvesse o seu universo da época de solteira. Pela família, abriu mão de muitas das coisas que gostava, menos de sua coleção, que pensando bem, ajudava a alimentar a vida vazia que levava em prol da família.

Enquanto olhava os discos, um homem de meia idade se aproximou oferecendo algum auxílio.

– Olá, posso ajudar em alguma coisa? – Disse-lhe sorrindo.

Mariana virou os olhos em direção a ele e achou interessante o fato de o atendente não ser nenhum rapazinho. Ele era alto, usava óculos de grau e já tinha o cabelo levemente grisalho. Ela tirou os fones do ouvido e explicou que buscava um disco do Pink Floyd, raro, chamado “A Saucerful of Secrets” de 1968. Era o último que faltava para completar sua coleção. Ele apontou para uma sessão específica e disse:

– Meu nome é Lucas, trabalho há bastante tempo por aqui em busca de discos antigos, ali no canto, à esquerda, você consegue ver a capa do “Dark side of the moon”, se tiver esse álbum por aqui ele estará lá. – Explicou.

Ela agradeceu e seguiu na direção apontada. Analisou todos os álbuns por ali e o que ela buscava, realmente não estava presente. Ele seguia observando-a para uma possível ajuda caso preciso e ela seguia olhando outros LPs. Sem encontrar o que buscava, decidiu-se por levar o “The Ultimate Experience” do Jimmy Hendrix, uma edição especial em CD que vinha em um “box” com fotos e outros detalhes do guitarrista.

Ao se aproximar do caixa, Lucas se ofereceu para ajudar. Comentou sobre o álbum que ela estava levando, falou que tocava guitarra e que Hendrix era uma de suas inspirações. Puxou o iPod do bolsou e mostrou uma gravação que havia feito tocando uma cover de “Purple Haze”. Mariana estava adorando a conversa com Lucas e ele, próximo à hora de seu lanche, a convidou para tomar um suco. Ela pensou um pouco, mas aceitou, afinal, que mal poderia haver em tomar um suco com ele?

Eles seguiram em direção a uma lanchonete próxima à loja, ela pediu um suco de graviola e ele preferiu um de cupuaçu. Lucas seguiu passando as faixas, mostrando a ela sua dedicação à guitarra que curtia no tempo livre. Quando perceberam, já estavam há mais de uma hora conversando e ele precisava voltar ao trabalho e ela para casa. Lucas lhe fez um novo convite.

– O que acha de no próximo final de semana ir ao show da minha banda? Poderíamos nos encontrar mais cedo, quando eu saio da loja, tomar um suco, conversar e depois você ia poder me ver tocar. – Convidou.

Mariana adoraria poder aceitar o convite, Lucas era uma pessoa muito interessante, um belo sorriso e muito cheiroso, mas ela sabia que não podia, agradeceu e decidiu partir.

– Desculpe Lucas, eu sou casada, tenho um filho pequeno. Não me interprete mal, mas não só não poderia ir como não ficaria bem uma mulher na minha situação saindo com você outras vezes. Preciso ir embora. – Explicou.

Lucas tirou um cartão do bolso com o número de seu telefone e entregou à Mariana. Enquanto ela esticou a mão para pegar o cartão e se despedir, ele a puxou pela cintura e a beijou no rosto, de forma que seus lábios quase se tocaram. Ela ficou vermelha, o coração acelerou com aquele ato inesperado e o máximo que pode fazer foi dizer:

– Não vou ligar. – Tentando manter a mesma seriedade de antes.

Ele voltou para a loja sem olhar para trás e ela observou o cartão por alguns minutos. Lembrou de todos os instantes que se passaram naquela tarde e guardou o cartão no bolso enquanto pensava: “Vou guardar o número, a loja tem muitos discos interessantes, vai que um dia eu preciso de alguma coisa?” E voltou para casa, com um leve sorriso no rosto.

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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2 comentários

  1. Afinal, ela completou a coleção?

  2. Gercilí, ainda não completou! o Disco que ela procurava não estava lá!

    Abraços

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