Kindle paperwhite: Prático como você

Papo Cabeça (?)

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Seguia pela Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, quando peguei o 173 para seguir em direção à Rodoviária Novo Rio. Estava com uma bolsa em uma mão e um casaco na outra, além de uma mochila nas costas. Ao passar pela roleta, enquanto tentava guardar as moedas que recebi como troco. Perdi o equilíbrio na primeira curva em direção ao Aterro do Flamengo.

Tentando me manter em pé, um senhor que estava sentado naquela área destinada para alocar cadeiras de roda (que curiosamente, jamais vi um deficiente utilizar o espaço) tentou me ajudar e conseguiu, a sua maneira, me equilibrar o suficiente para que pudesse voltar à posição correta. Agradeci e procurei um local para me sentar.

Já com tudo organizado, olhei para o senhor que me auxiliou. Pele morena, como um índio Sioux dos velhos filmes de Velho Oeste, um chapéu que lembrava o do Seu Madruga, do seriado Chaves, camiseta regata, bermuda e chinelos. Percebendo que lhe observava, o senhor começou o discurso que alegraria a viajem.

– É isso aí, aqui a gente sempre tem que ajudar um ao outro, porque você não me conhece, mas somos todos irmãos. – E prosseguiu. – Diferente daqueles 35 pilantras lá que foram condenados e até agora ninguém foi preso.

Imaginei que estivesse se referindo aos vinte e cinco condenados pelo Mensalão no governo Lula. E sim, ele errou na conta dos condenados, mas não no fato e prosseguiu:

 – Porque esse País é uma bagunça, aqui se rouba e ninguém vai preso, mas no dia 30 eles vão ver, vão ter que colocar o exército na rua, porque já está na Internet, vai ter revolução, vão quebrar tudo. Porque protesto onde não se quebra nada é procissão para São Jorge, ou aquelas manifestações de Gays.

Confesso que abri um leve sorriso com a menção a Parada Gay. E ele seguiu exaltado.

– No dia 30 eles vão ver, estão achando o que? Que no Rio de Janeiro ninguém luta por nada? Onde já se viu pagar isso para o professor? Falam que o professor ganha cinco mil, mas não é verdade, o professor que ensina a ler e escrever ganha menos que isso… Ganha… – Respirou, fez uma pequena pausa, e com aquela cara de obra de arte de Rodin continuou: – Mil cento e oitenta “contos”, que com os descontos, deve dar uns novecentos e oitenta “merréis”.

Não sei exatamente quanto ganha um professor e nem procurei saber para constatar a informação, mas estava me divertindo com o discurso em prol da educação que seguiu inflamado.

– Eles acham que o professor é o responsável pela educação, mas não é. Ele é o responsável pelo ensino, os responsáveis pela educação são os pais. Aí o professor briga com o aluno, que taca papel no professor e, a mãe ainda vai à escola pra agredir o professor, quando deveria educar, isso é um absurdo, ninguém valoriza, por isso, ganha novecentos e oitenta “merréis”. Aí a gente fica nessa situação, onde o Brasileiro é um “sub-analfabeto”.

Peraí… “Sub-analfabeto”? De onde ele tirou isso? Mas logo veio a explicação.

– O sub-analfabeto é aquele que lê e escreve, mas não pensa. É incapaz de pensar, só lê. Lê o jornal, acha que entende tudo, mas não entende, não pensa, só acha que lê.

Após a explicação, entendi que ele se referia aos analfabetos funcionais, que se enquadram perfeitamente na descrição. Ao meu lado havia outro senhor, este branco e calvo, com um farto bigode por sobre a boca e óculos para leitura. Empunhava o jornal do dia e me disse quase que sussurrado:

– Ele falou do jornal porque eu estou lendo jornal. – Vestiu a carapuça, mas parou por ali, e também acompanhava o discurso político.

– É assim no Brasil, mas no dia 30 eles vão ver, não vai sobrar nada e já está tudo na Internet. Aqui só tem ladrão. Mas isso não é de hoje, isso já existe há muito tempo, desde o Getúlio Vargas, que diziam ser gente boa, mas era um pilantra, a única coisa que fez foi a carteira assinada, o resto deixou o povo morrendo de fome.

Nisso pensei que ele entendia muito de história, podia ser completamente doido, mas até a CLT ele citou de forma correta e prosseguiu.

– Onde já se viu, o sujeito trabalha, ganha cinco salários e quando se aposenta só ganha um. Vai fazer o que? Virar mendigo? O meu pai só não morreu de fome porque eu o ajudei depois que se aposentou, senão era mendigo. Mas a culpa é dele também, dele e do meu avô, que deixaram esse País de merda pra mim. – Exaltou-se mais um pouco, e foi mais fundo na história do Mundo e das injustiças.

– Você acha que isso é de hoje? Isso começou no Império, com o Pôncio Pilatos, que colocava o gladiador para lutar com os leões e quando ele vencia virava o guarda costa deles, isso é assim, é igual hoje onde tem vantagem quem tem uma boquinha.

Nesse instante ele se superou e enrolou a coisa toda, Império, Romanos, Coliseus e Pôncio Pilatos, mas entendi a ideia que quis passar. Por alguns momentos se calou, olhava como se estivesse preocupado para descer em seu ponto. Todos no ônibus já esperavam que o discurso continuasse, mas se manteve em silêncio e quando acreditamos que tinha chegado ao fim, ele concluiu já puxando o sinal para descer.

– É sempre essa bagunça, agora a outra (Falava da Dilma) vai privatizar o pré-sal, depois que privatizou tudo no País (acho que confundiu com o FHC). Vai agora colocar o pré-sal em leilão. Mas essa bagunça vai acabar, porque já está na Internet, no dia 30 a gente vai quebrar tudo, não vai sobrar nada no Rio de Janeiro. – Encerrou descendo do ônibus.

Estávamos quase chegando à rodoviária quando o senhor de bigode farto guardou o seu jornal, me olhou e soltou a pérola que também fazia todo o sentido dentro do contexto da viagem.

– Se ele como todo o povo Brasileiro fosse bom de trabalho como é bom em reclamação, o País, com certeza, seria um pouco melhor.

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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