Kindle paperwhite: Prático como você

A estação

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Todas as noites, ele a acompanhava pelas ruas, tomou para si o hábito de protegê-la até que chegassem à estação. Estava sempre por cortejá-la com galanteios e pequenos bilhetes. De fato, eram apenas algumas mensagens que revelavam seus pensamentos e sentimentos. Mensagens estas que não tinha por costume pronunciar, porque quando perto dela estava, a coragem lhe faltava. Ainda que estivesse frio em quase todas as caminhadas, ele nunca teve a ousadia de abraçá-la. Seguia imaginando o dia em que poderia confortá-la em seus braços, aquecendo-a, para que pudesse sentir o coração pulsar mais forte em seu peito. Sonhava com o instante em que ela iria lhe sorrir mais uma vez.

Durante as manhãs, ele a observava pela fábrica enquanto trabalhava. Podia admirar suas formas, sua postura altiva enquanto, logo a sua frente, ela batia o ponto diariamente antes de começar as atividades. Quase sempre trocavam silenciosos e singelos sorrisos. Ele havia se apaixonado pela moça de poucas palavras e não sabia ao certo como se aproximar. O máximo que podia fazer, por hora, era oferecer sua companhia no momento de retornar pra casa.

Quando o inverno chegou ao fim, ela precisou partir, mandou-lhe entregar uma carta em que explicava seus motivos. Precisava retornar a sua cidade. A mãe havia adoecido e não existia quem pudesse cuidar de suas enfermidades. O que lhe era sereno tornou-se desespero. Como poderia perdê-la?

Ao entardecer, esperou o instante em que ela surgiria a sua frente, pegaria suas coisas e lhe daria um último sorriso antes de partir, mas ela não apareceu. Quando o sinal da fábrica tocou, tomou a decisão mais corajosa de sua vida, partiu em velocidade a caminho da estação, para que se não pudesse demovê-la de sua decisão, ao menos expressaria todos os seus sentimentos, antes de vê-la partir para todo o sempre.

Corria pelas ruas, chovia forte e estava frio, mas seu corpo estava quente. Ainda que o medo lhe fizesse tremer, o calor do desespero que queimava a alma o aquecia. Correu tanto que chegou a estação cerca de vinte minutos antes do horário de partida do último trem. Ela ainda não estava por lá. Pegou um café para se aquecer. Estava nervoso. Com a chuva, os autofalantes anunciavam que o trem se atrasaria em pelo menos uma hora, e ele teria tempo para se despedir. Enquanto ela não chegava, sentou em um banco de madeira ensaiando as primeiras palavras.

Uma neblina forte tomou a estação, junto com o frio e a solidão daquele momento. Enquanto a aguardava, acabou por adormecer sentado, esperando o instante em que a veria pela última vez. Sentiu uma mão tocando-lhe o rosto. Sorriu. Levantou-se e quando pensou em pronunciar suas primeiras palavras, ela lhe tocou os lábios com o dedo indicador em sinal de silêncio. Queria que ele apenas ouvisse.

– Eu sei – foi a única coisa que pronunciou antes que se beijassem pela primeira vez.

Os lábios se tocavam e o calor dos corpos passou a aquecer a noite fria. Ele precisava falar, precisava dizer-lhe para não partir, para ficar com ele, ou então para dizer-lhe que largaria tudo para ficar com ela.

Enquanto a beijava, olhava seus olhos e pensava apenas em dizer:

– Fica comigo… ou eu vou com você.

Ele pegava em suas mãos, a voz estava embargada, mal sabia como se expressar. Teria dito-lhe tudo naquele instante. Ela nunca poderia ouvir de outra pessoa todo o sentimento que ele estava prestes a declarar.

Os sinos começaram a tocar, era o aviso de que o trem estava chegando. O último comboio daquele dia. O som estridente do aviso, somado ao barulho dos vagões passando pelos trilhos o despertaram. Ele estava ainda sentado no mesmo banco aguardando sua chegada. Tudo não passava de um sonho bom e ela ainda não estava na estação.

Aproximou-se do guichê e perguntou sobre ela. Ele já conhecia o senhor que vendia os bilhetes, pois muitas das vezes em que a levava para a estação, trocava com ele algumas palavras sobre o dia a dia. Não obteve respostas.

Desta vez sem nenhuma pressa, caminhou pelas ruas. Chovia torrencialmente. Precisava voltar pra casa e descansar, porque o dia seguinte seria mais um de labuta e desta vez sem o sorriso que iluminava suas manhãs. Ela havia partido, uma hora antes de ele chegar à estação. Não teve sequer a oportunidade de dizer-lhe adeus.

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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