Kindle paperwhite: Prático como você

A janela

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Antes de ler este conto, recomendo a leitura de “A Gincana

Naquela manhã, os alunos precisavam apresentar um texto original para a aula de literatura. A orientação era de que cada um deles apresentasse em forma de leitura o que escreveram. Devido à timidez, Eduardo preferiu falar poucos minutos sobre o que escreveu, e ao invés de recitar o texto, solicitou ao professor que pudesse escrever na lousa aquilo que tinha elaborado em casa. O professor aceitou desde que não fosse uma redação, porque tomaria muito tempo da aula.

Em frente à turma, Eduardo tentava desviar o olhar de Mariana, enquanto explicava o texto que havia escrito. Disse que todas as noites, sonhava com sua musa “imaginária”, deitado na cama próxima à janela, sentindo a brisa que vinha rua. E pensando nisso, havia escrito a poesia que se preparava para escrever.

Brisa

Noites de forte calor,
Deito sob a janela,
Da escuridão sinto o odor,
No pensamento a imagem dela.

Não sei mais o que fazer,
Ando tão desnorteado,
Pra tentar te convencer,
Noite em claro acordado.

Mas eu não sei
O que esperar,
Te busco agora
No meu deitar.

Quero mais do que sonhar,
Realizar os meus desejos,
Quero o sol, quero o luar,
Perder as horas nos teus beijos.

Te enlouquecer no meu calor,
Os nossos corpos condensar,
Te aquecer com o meu ardor,
E em teu peito repousar.

Mas eu não sei
Como chegar,
Te quero agora
No meu deitar.

Todos na classe aplaudiram quando Eduardo terminou de escrever. Alguns se limitaram a escrever parágrafos, outros longos textos, mas só o rapaz escreveu uma poesia, e ainda uma declaração. O professor elogiou o trabalho, e lembrou que sorte deveria ter a menina para a qual ele escreveu a poesia.

Eduardo se preparava para deixar a classe, enquanto arrumava as coisas sobre a mesa, quando Mariana passou e elogiou a poesia: – Lindo! Lindo o que o que você escreveu! – Ele lhe sorriu de volta, e disse que pretendia musicar a poesia, pois “arranhava” no violão, e como gostava muito de música, pretendia eternizar a poesia em canção. Durante cerca de vinte minutos, conversaram sobre gostos musicais, bandas que gostavam e sobre o acervo que detinham. E ela lhe disse que qualquer dia pegaria com ele algumas músicas. Despediram-se e deixaram a classe.

Na manhã seguinte, Eduardo teve que acordar mais cedo, seus pais viajariam para o interior, e como tinha alguns trabalhos da escola para fazer, ficaria sozinho em casa, mas antes, precisava ajudar o pai a colocar as malas no carro. Assim que se foram aproveitou para dormir mais um pouco. Acordou quase na hora do almoço, e colocou uma lasanha no microondas. Após a refeição estar pronta, encheu o copo com Coca-cola e sentou em frente à TV para almoçar vendo um programa qualquer. Enquanto almoçava, alguém bateu á porta. Eduardo achou estranho porque não esperava receber visitas aquela tarde.

O coração quase saiu pela boca quando olhou pelo olho mágico e viu Mariana á sua frente. Ele limpou a boca rapidamente e abriu a porta. Ela lhe deu um sorriso e disse que estava passando por perto e que carregava consigo um pendrive, então pensou em copiar algumas músicas. Ele abriu a porta e pediu que ela se sentasse no sofá da sala, pois estava terminando de almoçar. Eduardo engoliu a comida, escovou os dentes e voltou. Perguntou à Mariana que tipo de música ela gostava, ela sem titubear respondeu: – Rock ué, o que você tem aí? – Ele mostrou os álbuns que tinha em MP3, Pink Floyd, Beatles, The Doors, Led Zeppelin, entre outros. Ela começou pelos discos do Pink Floyd e como eram muitos arquivos, a cópia ia demorar um pouco.

Eduardo ofereceu refrigerante, um  pouco de água, ou qualquer outra coisa. Ela aceitou água gelada e enquanto ele foi a cozinha buscar, se levantou e foi em direção a seu quarto. Ficou na porta, olhando ali parada, como se contemplasse algo. Assim que ele se aproximou com o copo em mãos, lhe perguntou: – É aqui a janela que você sonha com sua musa inspiradora? – Ele sem graça disse que sim, mas que eram somente histórias, que era pra justificar a poesia, e nitidamente nervoso, seguia na tentativa de explicar o que não tinha explicação. Ela bebeu metade da água que ele trouxe e deixou o copo sobre a cômoda.

Encostou na janela, e perguntou: – É aqui que você a beija? – Ele sem graça, baixou os olhos e disse: – Sim, é aí. – Ela apoiou-se no para peito e observou a rua por alguns instantes, antes de voltar pra ele e seguir a série de perguntas: – Como é o beijo? – Ele mal conseguia balbuciar alguma palavra e trêmulo respondeu: – Intenso.

Ela sorriu enquanto se virava novamente para a rua. Respirou como se trouxesse para os pulmões o ar mais puro que existia. Voltou-se mais uma vez para Eduardo e disse:

– Uma musa merece mais do que um beijo intenso. Se ela é a mulher que te enlouquece, que te deixa sem dormir, quando beijá-la, é preciso mais que um simples beijo, é preciso beijos intermináveis, pelo menos meia hora segurando-lhe a nuca e beijando como se não houvesse mais nada além daquele instante. – Proferiu.

Eduardo não sabia o que responder, e ela pediu que se aproximasse. Pegou em sua mão e disse: – Toda mulher sonha em ser a musa de um poeta, queria poder receber o beijo de meia hora.  – Eduardo afagou seus cabelos e olhou em seus olhos, não imaginava que Mariana pudesse estar ali à sua frente, a mulher que ele tanto desejava, com a qual sonhava quase todas as noites.  Os lábios se tocaram e ele sentia seu coração acelerado, finalmente beijava aqueles lábios que cultuava todos os dias de sua vida. Ela lhe sorriu por um instante, e ele observa os detalhes de sua musa, os cabelos e os olhos negros, a pele clara e macia, coberta por algumas sardas que davam a ela um ar ainda mais jovial.

Mariana lembrou que o beijo não poderia terminar. Eduardo não poderia esquecer de que uma musa precisava ser beijada por pelo menos trinta minutos. Ele sorriu e seguiu beijando a mulher que tanto lhe tirava o sono. Deitou Mariana por sobre a cama, sugava o lábio inferior e mordia o queixo de forma lasciva. Beijou seu pescoço, dando mordidas de leve na bela menina, abriu os botões de sua blusa e viu que as sardas de seu rosto seguiam por seu peito, como se lhe guiasse até os seios.

Eduardo a amou por toda à tarde, e assim como dizia na poesia, acabou por adormecer em seu peito, sentindo o aroma daquela mulher. O suor misturado entre os corpos e o desejo entorpecendo o ar. O rapaz acordou e não encontrou Mariana ao seu lado. Levantou rápido e assustado e, a menina estava copiando mais músicas para o pendrive. Dessa vez, o sonho era real, e ele não teria mais somente desejos, agora  teria também, as lembranças de Mariana.

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Dias depois.. Eduardo musicou a poesia.. e a mesma pode ser ouvida abaixo:

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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