Kindle paperwhite: Prático como você

Janta

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Ele se lembrava da primeira vez em que havia posto a mesa pra ela. O primeiro ano de casamento merecia algo especial de sua parte. Fez o jantar enquanto ela estava no trabalho. Montou a mesa com todo o carinho que podia, colocando sobre o prato um bilhete e nele estava escrito:

“Por que quer ficar comigo pra sempre?”

Quando comemoravam a data nos anos seguintes, seguia o mesmo ritual, fazia a janta, montava a mesa e a entregava um bilhete diferente. O recado era sempre uma pergunta que representava o momento em que eles passavam, “Por que me deu filhos tão lindos?”, “Por que me ama tanto?”, “Por que me faz tão feliz?” e assim por diante.

Naquela manhã não seria diferente. Cinquenta anos depois do matrimônio, a data não poderia passar em branco. Os filhos já não moravam mais ao seu lado, então nada poderia atrapalhar o sucesso daquele jantar.

Acordou cedo, tirou o pijama que usava e tomou um bom café. Leu as últimas notícias no jornal, o caderno de esportes e resolveu tomar banho para sair e comprar tudo o que precisava.

Enquanto saía do boxe, escorregou e tentou segurar em alguma coisa. Não conseguiu. Naquela idade tudo era mais difícil. Cortou o braço na beira da pia, tinha que fazer um curativo sozinho antes de sair.

Resmungou por uma meia hora, tinha raiva daquela situação, como o tempo poderia ter afetado tanto tudo? Ao mesmo tempo, se divertia rindo em silêncio de sua rabugice, algo que para ele também era um mal da idade. Vestiu-se e foi ao supermercado.

Escolheu as verduras que ela gostava. Pensou em fazer um salmão ao forno com legumes e uma salada das mais coloridas. Todos no mercado já o conheciam, ajudaram a passar pelo caixa e até mesmo a carregar tudo até a portaria, quando o zelador se encarregaria de levar tudo para o apartamento. Ele sempre era generoso, distribuía gorjetas, desde o mercado até o porteiro.

Almoçou e passou boa parte da tarde cochilando no sofá enquanto assistia qualquer coisa na televisão. Ser aposentado tinha suas vantagens, pois se com a idade muita coisa ficava pior, ao menos, dormir após o almoço ele podia fazer sem culpa e sem ninguém pra incomodar. Levantou e resolveu dar um jeito na cozinha e começar a fazer a janta.

Limpou o salmão, untou a forma e, ajeitou o peixe com alguns legumes sobre o papel alumínio. Levou ao forno enquanto fazia o arroz e montava a salada para agrada-la. Colocou o vinho na geladeira, da mesma marca que comprava todos os anos para aquela mesma data.

Ele tomava todos os cuidados para preparar aquele momento de forma especial. Era a maneira que havia encontrado, desde sempre, para dizer o quanto ela era especial.

Arrumou a mesa com uma toalha que havia comprado na semana anterior. Colocou os talheres de prata que eles ganharam de presente de casamento, cinquenta anos antes e só eram utilizados em ocasiões especiais. Às vezes chegava a passar um dia inteiro lustrando-os para que ficassem como novos.

Ajeitou o arroz na travessa e colocou no forno com um pouco de queijo por cima, para que pudesse manter-se aquecido e com uma camada derretida sobre os grãos. Montou a salada e levou ao centro da mesa. Legumes frescos e de cores fortes.

Enquanto terminava de pôr a mesa, recebeu uma ligação. Era seu filho mais velho, ele sempre ligava nesse dia. Conversavam sempre por mais de meia hora. A filha mais nova, desde pequena, sempre fora esquecida, ele já nem se incomodava mais com isso.

Tirou o salmão do forno, assim como o arroz e terminou de montar toda a mesa. Trouxe duas taças e tirou o vinho da geladeira. Pegou um lápis e uma folha do bloco de notas deixando mais um bilhete pra ela, em cima do prato, ansioso para o instante em que ela pudesse lê-lo.

Tudo estava pronto, precisava agora tomar um banho e se arrumar para quando ela chegasse. Ligou o radinho de pilha para ouvir as notícias enquanto ligava o chuveiro. Ouviu um barulho na sala, sempre ficava em dúvida se era apenas uma sensação ou se ela estava mesmo abrindo a porta. Esboçou um sorriso enquanto balançava levemente a cabeça. Ela sempre chegava antes que o jantar ficasse pronto, estragando a surpresa, todos os anos.

 Ao terminar de se arrumar e deixar o banheiro, ele verificou se a porta do quarto estava fechada, era a hora de sentar-se a mesa à sua espera. Sacou a rolha da garrafa e colocou um pouco de vinho em sua taça. Deu um primeiro gole para experimentar a safra. Reparou em seu reflexo no tinto conteúdo que o tempo havia passado.

Tantas histórias até ali, tanta vida em conjunto, uma família linda. Foram tantas viagens, tantos aniversários, tantas discussões e milhares de sorrisos. Ela sempre o fez muito feliz em todos os anos em que estiveram juntos.

Tanto tempo. Quantos homens podem se gabar de amar ininterruptamente a mesma mulher por mais de cinquenta anos? De ter vivido os melhores anos de sua vida ao lado de sua alma gêmea? Ter tomado pra si aquela mulher por noites inteiras ao longo da vida. Ele se sentou, pegou a garrafa de vinho e dessa vez encheu a taça a boca, tomando tudo de uma só vez, em goles fortes, intensos, como se passasse pela garganta toda aquela saudade.

Ela merecia sua lembrança, merecia que ele fizesse sempre o mesmo ritual, por todos esses anos, mesmo que em sua memória. Ele passou os últimos doze anos, vivendo sozinho naquele apartamento. Respirando as memórias de tudo que viveu até o dia em que ela se deitou para dormir e nunca mais acordou. Ele olhava para a cadeira onde ela se sentava e para o bilhete sobre o prato:

“Porque você se foi e me deixou aqui tão sozinho?”

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Sobre Rodrigo Barros

Empreendedor e escritor, Rodrigo Barros é bacharel em Biblioteconomia e em Sistemas de Informação, com pós-graduação em Gerência de Projetos e MBA em Gestão de Marketing. Fundador e editor chefe na Cartola Editora.

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2 comentários

  1. Muito bom. No próximo, faça um com final feliz, eu gosto.

  2. E assim temos o agora, um papel, uma caneta e o tempo de escrever pra quem se ama.
    Que o tempo seja nosso amigo, pra que esse agora dure por cinquenta anos.

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